Ana Vieira: e o que não é visto (2011)

56 min

Documentário  

Realização:  ·  Jorge Silva Melo

Argumento:  ·  Jorge Silva Melo

É insólito o lugar de Ana Vieira na arte portuguesa: trabalhando o rasto, a sombra, a passagem da luz (ou dos corpos?), o reflexo, a sobreposição, a pegada, a memória ou a planificação do futuro, a sua arte raia o invisível. E questiona o lugar da arte - e do espectador, colocado sempre “de fora” ou com a consciência do “off”.
Ana Vieira era para mim um nome distante, um rosto mítico, uma fotografia, uma memória de exposições na Quadrante (das Avenidas Novas) naqueles anos 70 cheios de pressa. Até que uma noite, no velho edifício d´ A Capital, onde, felizes, funcionaram os Artistas Unidos, a recepcionista me disse que uma senhora passara e deixara um projecto para mim. Lá ficou uns dias, nem olhei. E uma manhã vi, era o projecto “Casa Desabitada” e quem se propunha trabalhar connosco naquele edifício em ruínas, naquele barracão imundo era Ana Vieira. Eu não a conhecia, fiquei, confesso, comovido: que alguém com o percurso e o prestígio, a obra de Ana Vieira, queira meter-se com gente acampada em edifício em ruínas, era inesperado. E só possível por-que A Capital, a pouco e pouco, parecia um lugar possível, uma plataforma para os artistas, um lugar desejado. Depois, foi o corridinho do costume, negociações com as autoridades, fecho, suspensão de actividades, o exílio, o desterro no Teatro Taborda. Mas a ideia prosseguiu, a proposta de Ana Vieira fez-se. Em Lisboa e no Porto. Com a colaboração imprescindível de Liliana Coutinho (que viria a dedicar um estudo exemplar à obra da Artista publicado na Editorial Caminho), que também convoquei para me ajudar neste documentário.
Depois de 2004, não nos perdemos de vista. Em 2008/9, fizemos, com a Porta 33 (Funchal), a exposição IN/VISIBILIDADE, que, em Lisboa, foi montada no Palácio Marquês de Pombal, à rua do Século.
Agora, em 2010-11, a obra de Ana Vieira vai voltar a ver-se. Primeiro, no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada; depois, em Janeiro de 2011, no CAM.
Uma retrospectiva, uma revisão, uma oportunidade única de ver (o que não se vê). O que não se vê porque está guardado, porque não é mostrável, porque a arte de Ana não é a de “colorir uns metros quadrados para pendurar na parede”. Mas o que não se vê (ou se vê de esguelha, espiando, deslocando o ponto de vista, recusando a frontalidade do renascimento) é o assunto principal deste trabalho intransigente.
No cinema, designa-se isso por “off” e é o assunto principal de muitos dos mais belos planos. No teatro, chamou-se a isso “bastidores”, é onde morrem Jocasta e Antígona, se cega Édipo, morre Fedra. Nós só sabemos, porque, felizmente, Téramène na “Fedra” ou o Soldado no “Rei Édipo”, ecos, testemunhas, nos vêm contar.
Ou porque Ana Vieira, guardadora das sombras, lhes fixou a traça?
Filmar o invisível, é assim um destino: filmar o rasto (rastejar?), a ausência, colocar-me à indiscreta janela (é belo o inglês, Rear Window) onde passam as sombras, na caverna.
[Jorge Silva Melo]

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