O Tempo e as Bruxas (2012)

Ficção  

Realização:  ·  António Victorino d'Almeida

O “Tempo e as Bruxas” tenta utilizar em diversas situações a linguagem verbal e também simbólica do chamado teatro do absurdo - desde Samuel Beckett a Ionesco ou até mesmo Tardieu.
Com efeito, tudo gira basicamente em torno de uma família que vive numa pequena terra de província - pessoas que sofrem de muitas maneiras com o facto de não terem uma verdadeira história para contar, para evocar ou mesmo apenas para relembrar.
Para escapar à banalidade que os sufoca, essas personagens chegam a desenvolver ódios esquizofrénicos a objectos de uso quotidiano ou a defender teorias de severíssima exigência em relação à denominação mais correcta que acham dever atribuir ao horário das refeições.
Noutros casos, praticam cerimoniais de aparente teor cabalístico ou religioso, que afinal apenas revelam prosaicos objectivos de defesa da higiene pública…
Sacralizam a figura de uma senhora que morreu há longos anos, na sequência de um acidente caseiro, mas encarado segundo uma óptica esotérica e até despertando suspeitas de homicídio, ainda que nada prove que esse acidente fosse a causa real do falecimento.
Aceitam como autêntica a inimaginável longevidade de alguém que perdeu os documentos e que passa a simbolizar como que uma ameaça de eternidade nessa atmosfera cinzenta, pois os próprios delírios do absurdo podem tornar-se monótonos…
E até a figura de um provocador teoricamente mais lúcido que se considera acima da mediocridade dos outros, - porquanto vive num meio citadino, usufruindo das vantagens de uma fortuna adquirida com controversa legitimidade…- acaba a atribuir significados metafísicos ao presumível furto de uma encomenda, enquanto se encontrava distraído a discutir na rua.
Todas essas personagens procuram escapar aos estigmas da rotina em que decorre a sua vida, criando um mundo absurdo de suspeições e de acusações nunca verdadeiramente comprovadas, que possam valorizar e atribuir um significado transcendental a quaisquer evento mais fora do comum.
Eu considero que este fenómeno não é exclusivo dos pequenos meios provincianos, pois há países onde pouco se prova ou esclarece, porquanto talvez pouco lá se passe que seja digno de verdadeira atenção.
E todavia, a principal fonte de interesse do comum das pessoas também reside aí na delação suspeitosa dos mais diversos disparates, crimes ou mesmo aberrações.
Clama-se que algo é horrível, embora fique muitas vezes por saber o que é que realmente se passou - ou não passou…
Talvez a diferença mais fundamental entre esses dois mundos - aquele que se considera normal e o do absurdo que tento retratar neste filme… - resida no facto de que as figuras de “O Tempo e as Bruxas” se mostram algo mais influenciadas, mesmo que inconscientemente, por superstições ancestrais que já vêm de tempos imemoriais.
Será, por exemplo, o caso do acto outrora sacrílego - e suas possíveis consequências trágicas para quem o praticasse - de se matarem minhocas, dada a importância efectivamente fundamental desses seres na preservação da vida…
Na realidade a única personagem que ignora todas essas tradições - e inequivocamente se rebela e acaba por se distanciar - será talvez um cão que ataca o dono, conquanto nem sequer isso fique muito bem definido…
Porque, em termos mais concretos e realistas, resta apenas a imagem mítica dos bodes, figuras distanciadas mas atentas à realidade do que se passa cá em baixo.
[António Victorino d’Almeida]

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